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quarta-feira, 18 de maio de 2011

Das Leis Morais - 5

 

– Capítulo V –

Lei de conservação

1 Instinto de conservação. 2 Meios de conservação. 3 Gozo dos bens terrenos. 4 Necessário e supérfluo. 5 Privações voluntárias. Mortificações.
      1 Instinto e conservação
Todos os seres vivos possuem o instinto de conservação, seja qual for o grau de sua inteligência. Nuns, é puramente maquinal, racionado em outros. Todos os seres têm que concorrer para o cumprimento dos desígnios da Providência, daí porque Deus lhes outorgou o instinto de conservação. Acresce que a vida é necessária ao aperfeiçoamento dos seres. Eles o sentem instintivamente, sem disso se aperceberem.
      2 Meios de conservação
Tendo dado ao homem a necessidade de viver, Deus lhe facultou, em todos os tempos, os meios de o conseguir. Essa a razão porque faz que a Terra produza de modo a proporcionar o necessário aos que a habitam, visto que só o necessário é útil. A Terra produziria sempre o necessário, se com o necessário soubesse o homem contentar-se. Se o que ela produz não lhe basta a todas as necessidades, é que ele emprega no supérfluo o que poderia ser aplicado no necessário. O solo é a fonte primacial donde dimanam todos os outros recursos, pois que, em definitivo, estes recursos são simples transformações dos produtos do solo. Se a uns faltam os meios de subsistência, ainda quando os cerca a abundância, deve-se atribuir isso ao egoísmo dos homens, que nem sempre fazem o que lhes cumpre. Depois, e as mais das vezes, devem-no a si mesmos. Buscai e achareis, estas palavras não querem dizer que, para achar o que deseje, basta que o homem olhe para a Terra, mas que lhe é preciso procurá-lo, não com indolência, e sim com ardor e perseverança, sem desanimar ante os obstáculos, que muito amiúde são simples meios de que se utiliza a Providência para lhe experimentar a constância, a paciência e a firmeza.
Nos mundos de mais apurada organização, os seres vivos também têm a necessidade de alimentar-se, porém seus alimentos estão em relação com a sua natureza. Tais alimentos não seriam bastante substanciosos para os nossos estômagos grosseiros; assim como os deles não poderiam digerir os nossos alimentos.
      3 Gozo dos bens terrenos
O uso dos bens terrenos é um direito de todos os homens. Deus não imporia um dever sem dar ao homem o meio de cumpri-lo. Pôs atrativos no gozo dos bens materiais, objetivando, assim, desenvolver-lhe a razão, que deve preservá-lo dos excessos.
O homem que procura nos excessos de todo gênero o requinte do gozo, coloca-se abaixo do bruto, pois que este sabe deter-se, quando satisfeita a sua necessidade.
      4 Necessário e supérfluo
Aquele que é ponderado conhece o limite do necessário por intuição. Muitos só chegam a conhecê-lo por experiência e à sua própria custa. Por meio da organização que lhe deu, a Natureza traçou ao homem o limite das necessidades; porém, os vícios lhe alteraram a constituição e lhe criaram necessidades que não são reais. Os que açambarcam os bens da Terra para se locupletarem com o supérfluo, em prejuízo daqueles a quem falta o necessário, olvidam a lei de Deus e terão de responder pelas privações que houverem causado aos outros.
      5 Privações voluntárias Mortificações
A lei da conservação obriga o homem a prover as necessidades do corpo, porque, sem força e saúde, impossível é o trabalho. É natural que o homem procure o bem-estar. Deus só proíbe o abuso, por ser contrário à conservação.
Há privações voluntárias que são meritórias, como a dos gozos inúteis, porque desprende da matéria o homem e lhe eleva a alma. Meritório é resistir à tentação que arrasta ao excesso ou ao gozo das coisas inúteis; é o homem tirar do que lhe é necessário para dar aos que carecem do bastante. A vida de mortificações ascéticas, se somente serve para quem a pratica e o impede de fazer o bem, é egoísmo, seja qual for o pretexto com que entendem de colori-la. Privar-se a si mesmo e trabalhar para os outros, tal a verdadeira mortificação, segundo a caridade cristã. Não é racional a abstenção de certos alimentos, pois, permitido é ao homem alimentar-se de tudo o que não lhe prejudique a saúde. Alguns legisladores, porém, com um fim útil, entenderam de interdizer o uso de certos alimentos e, para maior autoridade imprimirem às suas leis, apresentaram-nas como emanadas de Deus. A alimentação animal, com relação ao homem, não é contrária à lei da Natureza, pois, dada a sua constituição física, a carne alimenta a carne. A lei de conservação lhe prescreve, como um dever, que mantenha suas forças e saúde, para cumprir a lei do trabalho. Ele, pois, tem que se alimentar conforme o reclame sua organização.
Os sofrimentos naturais são os únicos que elevam o homem, porque vêm de Deus. Os sofrimentos voluntários de nada servem, quando não concorrem para o bem de outrem. Não se adiantam no caminho do progresso os que abreviam a vida, mediante rigores sobre-humanos, como o fazem os bonzos, os faquires e alguns fanáticos de muitas seitas. Sofrer alguém, voluntariamente, apenas por seu próprio bem, é egoísmo; sofrer pelos outros é caridade: tais os preceitos.

Das Leis Morais - 4

 

– Capítulo IV –

Da lei de reprodução

1 População do globo. 2 Sucessão e aperfeiçoamento das raças. 3 Obstáculos à reprodução. 4 Casamento e celibato. 5 Poligamia.
      1 População do globo
É lei da Natureza a reprodução dos serves vivos, sem o que o mundo corporal pereceria. Mesmo com a progressão crescente que vemos, a população não chegará a ser excessiva, pois Deus a isso provê e mantém sempre o equilíbrio. Ele coisa alguma inútil faz. O homem, que apenas vê um canto do quadro da Natureza, não pode julgar da harmonia do conjunto.
      2 Sucessão e aperfeiçoamento das raças
Há raças humanas que decrescem, mas outras lhes terão tomado o lugar, como outras um dia tomarão o lugar das atuais. Os homens atuais não formam uma criação nova, pois são os mesmos Espíritos que voltaram, para se aperfeiçoar em novos corpos, mas que ainda estão longe da perfeição. Assim, a atual raça humana, que, pelo seu crescimento, tende a invadir a Terra e a substituir as raças que se extinguem, terá sua fase de crescimento e de desaparição. Substituí-la-ão outras raças mais aperfeiçoadas, que descenderão da atual, como os homens civilizados de hoje descendem dos seres brutos e selvagens dos tempos primitivos. A origem das raças se perde na noite dos tempos. As raças animais e vegetais podem ser aperfeiçoadas pela Ciência. Sendo a perfeição a meta para que tende a Natureza, favorecer essa perfeição é corresponder às vistas de Deus.
      3 Obstáculos À reprodução
Tudo o que embaraça a Natureza em sua marcha é contrario à lei geral. Deus concedeu ao homem, sobre todos os seres vivos, um poder de que ele deve usar, sem abusar. Pode, pois, regular a reprodução, de acordo com as necessidades. Não deve opor-se-lhe sem necessidade. A ação inteligente do homem é um contrapeso que Deus dispôs para restabelecer o equilíbrio entre as forças da Natureza e é ainda isso o que o distingue dos animais, porque ele obra com conhecimento de causa. Mas, os mesmos animais também concorrem para a existência desse equilíbrio, porquanto o instinto de destruição que lhes foi dado faz com que, provendo à própria conservação, obstem ao desenvolvimento excessivo, quiçá perigoso, das espécies animais e vegetais de que se alimentam. Quanto, porém, aos usos cujo efeito consiste em obstar à reprodução, para satisfação da sensualidade, trata-se da predominância do corpo sobre a alma, o que demonstra quanto o homem é material.
      4 Casamento e celibato
O casamento representa uma medida para a marcha e progresso da humanidade. Sua abolição seria uma regressão à vida dos animais. A indissolubilidade absoluta do casamento é uma lei humana. Mas os homens podem modificar suas leis; só as da Natureza são imutáveis. O celibato voluntário, entretanto, representa egoísmo e desagrada a Deus e engana o mundo. Não se deve confundir o celibato voluntário com aquele que é feito, como sacrifício, a serviço da humanidade, porque todo sacrifício pessoal é meritório, quando feito para o bem. Quanto maior o sacrifício, tanto maior o mérito.
      5 Poligamia
A poligamia é lei humana cuja abolição marcou um progresso social. O casamento, segundo as vistas de Deus, tem que se fundar na afeição dos seres que se unem. Na poligamia não há afeição real: há apenas sensualidade.

Das Leis Morais - 3

– Capítulo III –

Da lei do trabalho

1 Necessidade do trabalho. 2 Limite do trabalho. Repouso.
      1 Necessidade do trabalho
O trabalho é lei da natureza, por isso que constitui uma necessidade, e a civilização obriga o homem a trabalhar mais, porque lhe aumenta as necessidades e os gozos. O Espírito trabalha, assim como o corpo. Toda ocupação útil é trabalho.
O trabalho se impõe ao homem por ser uma conseqüência da sua natureza corpórea. É expiação e, ao mesmo tempo, meio de aperfeiçoamento da sua inteligência. Em mundos mais adiantados também existe o trabalho, porém a sua natureza está em relação com a natureza das necessidades. Quanto menos materiais são estas, menos material é o trabalho. Mesmo neste mundo, o homem que possua bens suficientes para lhe assegurarem a existência, não está isento do trabalho. Deve ser útil aos semelhantes conforme os meios de que disponha. Os filhos devem trabalhar para seus pais, do mesmo modo que os pais têm de trabalhar para seus filhos, pois os membros de uma família devem ajudar-se mutuamente.
      2 Limite do trabalho Repouso
O repouso é uma lei da Natureza, pois serve para a reparação das forças do corpo e também é necessário para dar um pouco mais de liberdade à inteligência, a fim de que se eleve acima da matéria. O limite do trabalho é o das forças e a esse respeito Deus deixa inteiramente livre o homem, porém, todo aquele que tem o poder de mandar é responsável pelo excesso de trabalho que imponha a seus inferiores, porquanto, assim fazendo, transgride a lei de Deus. O homem tem direito de repousar na velhice. Não tendo este família, a sociedade deve fazer as vezes desta. É a lei da caridade.

Das Leis Morais - 2

– Capítulo II –

Da lei de adoração

1 Objetivo da adoração. 2 Adoração exterior. 3 Vida contemplativa. 4 A prece. 5 Politeísmo. 6 Sacrifícios.
      1 Objetivo da adoração
A adoração consiste na elevação do pensamento a Deus. É um sentimento inato no homem, como o da existência de Deus. A consciência da sua fraqueza leva o homem a curvar-se diante daquele que o pode proteger. Nunca houve povos destituídos de todo sentimento de adoração. Todos compreendem que acima de tudo há um ente supremo.
      2 Adoração exterior
A adoração verdadeira não precisa de manifestações exteriores, pois ela parte do coração. A adoração exterior, se não constituir num vão simulacro, tem seu valor relativo. Deus prefere os que o adoram do fundo do coração, com sinceridade, fazendo o bem e evitando o mal, aos que julgam honrá-lo com cerimônias que os não tornam melhores para com os seus semelhantes. Todos os homens são irmãos e filhos de Deus. Ele atrai a si todos os que lhe obedecem às leis, qualquer que seja a forma sob que se exprimam. É hipócrita aquele cuja piedade se cifra nos atos exteriores. Mau exemplo dá todo aquele cuja adoração é afetada e contradiz seu procedimento. A adoração em comum dá mais força aos homens para atrair a si os bons Espíritos. Entretanto, não devemos crer que menos valiosa seja a adoração particular, pois que cada um pode adorar a Deus pensando nele.
      3 Vida contemplativa
Perante Deus não tem mérito a vida contemplativa, porquanto, se é certo que não fazem o mal também o é que não fazem o bem e são inúteis. Demais, não fazer o bem já é um mal. Quem passa todo o tempo na meditação e na contemplação nada faz de meritório aos olhos de Deus, porque vive uma vida toda pessoal e inútil à humanidade e Deus lhe pedirá contas do bem que não houver feito.
      4 A prece
A prece é sempre agradável a Deus, quando ditada pelo coração, pois, para ele, a intenção é tudo. Assim, preferível lhe é a prece do íntimo à prece lida. Orar a Deus é pensar nele; é aproximar-se dele; é pôr-se em comunhão com ele. A três coisas podemos propor-nos por meio da prece: louvar, pedir, agradecer. A prece torna melhor o homem, porquanto aquele que ora com fervor e confiança se faz mais forte contra as tentações do mal e Deus lhe envia bons Espíritos para assisti-lo. O essencial não é orar muito, mas orar bem. Aquele que pede perdão de suas faltas só obtém-no mudando de procedimento. As boas ações são a melhor prece, por isso que os atos valem mais que as palavras.
O pensamento e a vontade representam em nós um poder de ação que alcança muito além dos limites da nossa esfera corporal. A prece que façamos por outrem é um ato dessa vontade. Se for ardente e sincera, pode chamar, em auxílio daquele por quem oramos, os bons Espíritos, que lhe virão sugerir bons pensamentos e dar força de que necessitem seu corpo e sua alma.
As nossas provas estão nas mãos de Deus e algumas há que têm que ser suportadas até o fim; mas, sempre Deus leva em conta a resignação. A prece traz para junto de nós os bons Espíritos e, dando-nos estes a força de suportá-las, corajosamente, menos rudes elas nos parecem.
Os desígnios de Deus não podem ser mudados, mas a alma por quem se ora experimenta alívio, porque recebe assim um testemunho do interesse que inspira aquele que por ela pede e também porque o desgraçado sente sempre um refrigério, quando encontra almas caridosas que se compadecem de suas dores. Amai-vos uns aos outros, disse o Cristo. Esta recomendação contém a de empregar o homem todos os meios possíveis para testemunhar aos outros homens afeição, sem haver entrado em minúcias quanto à maneira de atingir ele esse fim. Pode-se também orar aos bons Espíritos, como sendo os mensageiros de Deus e os executores de sua vontade.
      5 Politeísmo
Uma das crenças mais antigas e espalhadas pelo mundo, foi o politeísmo. A concepção de um Deus único não poderia existir no homem, senão como resultado do desenvolvimento de suas idéias. Incapaz, pela sua ignorância, de conceber um ser imaterial, sem forma determinada, atuando sobre a matéria, conferiu-lhe o homem atributos da natureza corpórea, isto é, uma forma e um aspecto e, desde então, tudo o que parecia ultrapassar os limites da inteligência comum era, para ele, uma divindade. Daí crer em tantas potências distintas quantos os efeitos que observava. Em todos os tempos, porém, houve homens instruídos que compreenderam ser impossível a existência desses poderes múltiplos a governarem o mundo, sem uma direção superior, e que, em conseqüência, se elevaram à concepção de um Deus único.
      6 Sacrifícios
Remonta à mais alta antigüidade o uso dos sacrifícios humanos, e isso se explica porque o homem não compreendia Deus como sendo a fonte da bondade. Nos povos primitivos, a matéria sobrepuja o Espírito; eles se entregam aos instintos do animal selvagem. Em segundo lugar, é natural que os homens primitivos acreditassem ter uma criatura animada muito mais valor, aos olhos de Deus, do que um corpo material. Foi isto que os levou a imolarem, primeiro, animais e, mais tarde, homens. Não foi de um sentimento de crueldade que se originaram os sacrifícios humanos e sim de uma idéia errônea quanto a maneira de agradar a Deus. Com o correr dos tempos, os homens entraram a abusar dessas práticas, imolando seus inimigos comuns, até mesmo seus inimigos particulares. As Guerras Santas, por exemplo, são feitas por homens impelidos pelos maus Espíritos que contravêm à vontade de Deus. Todas as religiões, ou, antes, todos os povos adoram um mesmo Deus, não se justificando uma guerra sob o fundamento de ser a religião destes diferente da daqueles. Deus abençoa sempre os que fazem o bem, e o melhor meio de honrá-lo consiste em minorar os sofrimentos dos pobres e dos aflitos. O homem que se atém às exterioridades, e não ao coração, é um Espírito de vistas acanhadas.

 

Das Leis Morais -1

– Parte terceira –

– Capítulo I –

Da lei divina ou natural

1 Caracteres da lei natural. 2 Origem e conhecimento da lei natural. 3 O bem e o mal. 4 Divisão da lei natural.
      1 Caracteres da lei natural
A lei natural é lei de Deus. É a única verdadeira para a felicidade do homem. Indica-lhe o que deve fazer ou deixar de fazer e ele só é infeliz quando dela se afasta. Todas as leis da Natureza são leis divinas, pois que Deus é o autor de tudo. Para que o homem possa aprofundar-se nas leis de Deus é preciso muitas existências.
Entre as leis divinas, umas regulam o movimento e as relações da matéria bruta: as leis físicas, cujo estudo pertence ao domínio da Ciência. As outras dizem respeito especialmente ao homem considerado em si mesmo e nas suas relações com Deus e com seus semelhantes. Contêm as regras da vida do corpo, bem como as da vida da alma: são as leis morais.
      2 Origem e conhecimento da lei natural
Todos podem conhecer a lei de Deus, mas nem todos a compreendem. Os homens de bem e os que se decidem a investigá-la são os que melhor a compreendem. Todos, entretanto, a compreenderão um dia, porquanto forçoso é que o progresso se efetue. A alma compreende a lei de Deus de acordo com o grau de perfeição que tenha atingido e dela guarda a intuição quando unida ao corpo. Essa lei está escrita na consciência do homem. Como ele a esquece e despreza, Deus a lembra através de seus missionários, que são Espíritos superiores que se encarnam na Terra, com a missão de fazer progredir a humanidade.
O caráter do verdadeiro profeta é ser um homem de bem, inspirado por Deus. Podemos reconhecê-lo pelas suas palavras e pelos atos. Impossível é que Deus se sirva da boca de um mentiroso para ensinar a verdade. Para o homem, Jesus constitui o tipo da perfeição moral a que a humanidade pode aspirar na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo e a doutrina que ensinou é a expressão mais pura da lei do Senhor, porque, sendo ele o mais puro de quantos têm aparecido na Terra, o Espírito divino o animava. Jesus pregava amiúde, na sua linguagem, alegorias e parábolas, porque falava de conformidade com os tempos e os lugares. Faz-se mister, agora, que a verdade se torne inteligível para todo mundo, daí porque vieram os Espíritos trazer o ensino claro e sem equívocos, para que ninguém possa pretextar ignorância e para que todos o possam julgar e apreciar com a razão. Importa que cada coisa venha a seu tempo. A verdade é como a luz: o homem precisa habituar-se a ela, pouco a pouco; do contrário, fica deslumbrado.
      3 O bem e o mal
A moral é a regra do bem proceder, isto é, de distinguir o bem do mal. O bem é tudo o que é conforme à lei de Deus; o mal, tudo o que lhe é contrário. Deus deu inteligência ao homem para distinguir por si mesmo o que é bem do que é mal.
Os Espíritos foram criados simples e ignorantes. Deus deixa que o homem escolha o caminho. Tanto pior para ele, se toma o caminho mau: mais longa será sua peregrinação. É preciso que o Espírito ganhe experiência; é preciso, portanto, que conheça o bem e o mal. Eis porque se une ao corpo.
A lei de Deus é a mesma para todos; porém, o mal depende, principalmente, da vontade que se tenha de o praticar. Tanto mais culpado é o homem, quanto melhor sabe o que faz. Não basta que o homem deixe de praticar o mal; cumpre-lhe fazer o bem no limite de suas forças, porquanto responderá por todo mal que haja resultado de não haver praticado o bem. Não há quem não possa fazer o bem. Somente o egoísta nunca encontra ensejo de o praticar. Para certos homens, o meio onde se acham colocados representa a causa primária de muitos vícios e crimes, mas, ainda aí, há uma prova que o Espírito escolheu, quando em liberdade, levado pelo desejo de expor-se à tentação para ter o mérito da resistência. O mérito do bem está na dificuldade em praticá-lo. Nenhum merecimento há em fazê-lo sem esforço e quando nada custe. Em melhor conta tem Deus o pobre que divide com outro o seu único pedaço de pão, do que o rico que apenas dá do que lhe sobra, disse-o Jesus, a propósito do óbulo da viúva.
      4 Divisão da lei natural
A lei de Deus se acha contida toda no preceito do amor ao próximo, ensinado por Deus. Esse preceito encerra todos os deveres dos homens uns para com os outros. Demais, a lei natural abrange todas as circunstâncias da vida e esse preceito compreende só uma parte da lei. Aos homens são necessárias regras precisas; os preceitos gerais e muito vagos deixam grande número de portas abertas a interpretações.
A divisão da lei natural em dez partes, compreendendo as leis de adoração, trabalho, reprodução, conservação, destruição, sociedade, progresso, igualdade, liberdade e, por fim, a de justiça, amor e caridade, é de natureza a abranger todas as circunstâncias da vida, o que é essencial. Entretanto, a última lei é a mais importante, por ser a que faculta ao homem adiantar-se mais na vida espiritual, visto que resume todas as outras.

"Do Livro ABC do Espiritismo" 

 


quarta-feira, 11 de maio de 2011

O Auto-Perdão - Como faze-lo acontecer?



““... Porque se sois duros, exigentes, inflexíveis, se tendes rigor mesmo por uma ofensa leve, como quereis que Deus esqueça que, cada dia, tendes maior necessidade de indulgência?
(Cap. X, item 15)

Nossas reações frente à vida não acontecem em função dos estímulos ou dos acontecimentos exteriores, mas sim em função de como percebemos e julgamos interiormente esses mesmos estímulos e acontecimentos. Em verdade, captamos a realidade dos fatos com nossas mais íntimas percepções, desencadeando consequentemente peculiares emoções, que serão as bases de nossas condutas e reações comportamentais no futuro.


Portanto, nossa forma de avaliar e reagir frente anos nossos atos e atitudes frente aos outros, conceituando-os como bons ou maus, é determinada por um sistema de autocensura que se encontra estruturado nos "níveis de consciência" da criatura humana.


Toda e qualquer postura que assumimos na vida se prende á maneira como olhamos o mundo fora e dentro de nós, podendo nos levar a uma sensação íntima de realização ou de frustração, de contentamento ou de culpa, de perdão ou de punição, de acordo com nosso "código moral" modelado na intimidade de nosso psiquismo.


Nosso "julgador interno" foi formado sobre as bases de nossos conceitos acumulados nos tempos passados das vidas incontáveis, como também com os pais atuais, com os ensinamentos de professores, com líderes religiosos, com o médico da família, com as autoridades políticas de expressão, com a sociedade enfim.


Também, de forma sutil e quase inconsciente, no contato com informações, ordens, histórias, superstições, preconceitos e tradições assimilados dos adultos com quem convivemos em longos períodos de nossa vida. Portanto, ele, o julgador interno, nem sempre condiz com a realidade perfeita das coisas.


Essa "consciência crítica" que julga e cataloga nossos feitos, auto censurando ou auto-aprovando, influencia a criatura a agir da mesma maneira que os adultos agiram sobre ela quando criança, punindo-a, quando não se comportava da maneira como aprendeu


ser justa e correta, ou dando toda uma sensação de aprovação e reconforto, quando ela agia dentro das propostas que assimilou como sendo certas e decentes.


A gênese do não-perdão a si mesmo está baseada no tipo de informações e mensagens que acumulamos através das diversas fases de evolução de nossa existência de almas imortais.


Podemos experimentar culpa e condenação, perdão e liberdade de acordo com os nossos valores, crenças, normas e regras vigentes, podendo variar de indivíduo para indivíduo, conforme seu país, sexos, raça, classe social, formação familiar e fé religiosa.


Entendemos assim que, para atingir o autoperdão, é necessário que a criatura reexamine suas crenças profundas, sob a natureza do seu próprio ser, estudando as leis da Vida Maior, bem como as raízes de sua educação da infância atual.


Uma das grandes fontes de auto-agressão vem da busca apressada de uma perfeição absoluta, como se todos devêssemos ser deuses ou deusas de um momento para outro. Aliás, a exigência de perfeição é considerada a pior inimiga da criatura, pois a leva a uma constante hostilidade contra si mesma, exigindo-lhe capacidades e habilidades ainda não adquiridas por ela.


Se padrões muito severos de censura foram estabelecidos por pais perfeccionistas à criança, ou se lhe foi imposto um senso de justiça implacável, entre regulamentos disciplinadores e rígidos, provavelmente ela se tornará um adulto inflexível e irredutível para com os outros e consigo mesmo.


Quando sempre esperamos perfeição em tudo e confrontamos o lado "inadequado" de nossa natureza humana, sentir-nos-emos fatalmente diminuídos e envolvidos por uma aura de fracasso. Não tomar consciência de nossas limitações é como se admitíssemos


que os outros e nós mesmos devêssemos ser oniscientes e todo-poderosos. Afirmam as criaturas: "Recrimino por ter sido tão ingênuo naquela situação..." "Tenho raiva de mim mesmo por ter aceitado tão facilmente aquelas mentiras..."; "Deveria ter previsto estes problemas atuais"; "Não consigo perdoar-me, pois pensei que ele mudaria...".


São maneiras de expressarmos nossa culpa e o não-perdão a nós mesmos – exigências desmedidas atribuídas a pessoas perfeccionistas.


Os viciados em perfeição acham que podem fazer tudo sempre melhor e, portanto, rejeitam quase tudo o que os outros fazem ou fizeram. Não aceitam suas limitações e não enxergam a "perfeição em potencial", que existe dentro deles mesmos, perdendo assim a oportunidade de crescimento pessoal e de desenvolvimento natural, gradativo e constante, que é a técnica das leis do universo.


A desestima a nós próprios nasce quando nós não nos aceitamos como somos. Somente a auto-aceitação leva a criatura a sentir uma plena segurança frente aos fatos e às ocorrências do seu cotidiano, ainda que os indivíduos a seu redor não a aceitem e nem entendam suas melhores intenções.


O perdão concede a paz de espírito, mas essa concessão nos escapará da alma se estivermos presos ao desejo de dirigir os passos de alguém, não aceitando o seu propósito de viver.


Deveremos compreender que cada um de nós está cumprindo um destino só seu, e que as atividades e modos das outras pessoas ajustam-se somente a elas mesmas. Estabelecer padrões de comportamento e modelos idealizados para os nossos semelhantes é puro desrespeito e incompreensão frente ao mecanismo da evolução espiritual. Admitir e aceitar os outros como eles são nos permite que eles nos admitam e nos aceitem como somos.


Perdoar-nos resulta no amor a nós mesmos - o pré-requisito para alcançarmos a plenitude do "bem-viver".


Perdoar-nos é não importar-nos com o que fomos, pois a renovação está no instante presente e o que importa é como somos agora e quais são as determinações atuais para o nosso progresso espiritual.


Perdoar-nos é conviver com a mais nítida realidade, não se distraindo com as ilusões de que os outros e nós mesmos "deveríamos ser" algo que imaginamos ou fantasiamos.


Perdoar-nos é compreender que os que nos cercam são reflexos de nós mesmos, criações nossas que materializamos com nossos pensamentos e convicções íntimas.


O texto em estudo - "perdoar aos inimigos é pedir perdão a si mesmo" - quer dizer: enquanto nós não nos libertarmos da necessidade de castigar e punir ao próximo, não estaremos recebendo a dádiva da compreensão para o autoperdão.


"... porque se sois duros, exigentes, inflexíveis, se tendes rigor mesmo por uma ofensa leve...", como haveremos de criar oportunidades novas para que o "Divino Processo da Vida" nos fecunde a alma com a plenitude do Amor a fim de que possamos perdoar- nos?


Hammed. 
Espiritismo na Rede